segunda-feira, 21 de março de 2011

Gordura ou gostosura?

Publicado em 20 de março de 2011

Novo índice para medir obesidade usa o tamanho do quadril ou invés do peso para definir se a pessoa é obesa. Segundo o parâmetro proposto, mulheres de quadris fartos deixam de ser boazudas e passam a ser gordas


Já dizia Shakira em sua canção “Hips don't lie”, lançada em 2006, que os quadris não mentem. Em sua música, a cantora colombiana estava falando sobre como as cadeiras podem ser eloquentes no que diz respeito à sensualidade. Aqui no Brasil, a metade masculina da população concorda com Shakira: o quadril feminino é muito sexy e, para a maioria esmagadora deles, quanto maior o popozão, melhor. Já grande parte da mulherada brasileira também acha que o quadril e o bumbum são grandes atrativos do sexo oposto, mas em um tamanho moderado.

Em uma pesquisa publicada no mês de março da revista médica Obesity, uma equipe de pesquisadores liderada pelo fisiologista americano Richard Bergman constatou que, quando o assunto é obesidade, Shakira tinha razão ao dizer que os quadris não mentem. Além disso, ele está com a ala feminina brasileira ao afirmar que nem sempre mais é melhor.

O que Bergman propõe é um novo método para apontar quem está acima ou abaixo do peso ideal que utiliza a estatura e tamanho do quadril. De acordo com seu Índice de Adiposidade Corporal (IAC), quanto maior a circunferência dos quadris, maior a chance do indivíduo estar acima do peso. O novo índice quer substituir o antigo Índice de Massa Corporal (IMC) que mede a obesidade de acordo com a estatura e o peso do indivíduo e vem sendo usado até hoje pela classe médica e por profissionais de saúde há mais de dois séculos. (Veja como calcular o IAC e o IMC em http://www.dmdigital.com.br/index.php?edicao=8534&contpag=1)

O pesquisador afirma que a circunferência do quadril é uma medida indireta para inferir a quantidade total de gordura no corpo. Ele voltou seus olhos para os quadris após submeter dois mil voluntários afrodescendentes e cidadãos de origem mexicana americanos a exames de avaliação da composição corporal, usando feixes de raio-x para determinar a porcentagem de ossos, músculos e gordura. Para ele, um homem de 1,75m de altura seria saudável se tivesse um quadril de até 100cm. Já uma mulher de 1,70 poderia ter uma anca de até 111cm de circunferência.

Já é sabido pela comunidade médica que o lugar onde a gordura se acumula faz com que ela seja mais ou menos perigosa para a saúde e para o coração. Os pesquisadores ainda não sabem explicar porque a localização aumenta ou diminui o risco de doenças cardiovasculares. A mais perigosa é a gordura visceral, a famosa barriga de chopp. Já a que se acumula nos culotes, o terror estético das mulheres, é a menos perigosa. O IAC vem sendo criticado justamente por concentrar suas medidas na região que oferece menor perigo à saúde. Porém, Bergman explicou à revista Época desta semana que a sua “preocupação foi criar um bom parâmetro para estimar a totalidade da gordura corporal” e não determinar a propensão a doenças típicas da obesidade.

Gorda, eu?!

Aqui no país das popuzudas, onde o culto à bunda gera celebridades que tem esta parte do corpo natural ou cirurgicamente avantajadas, o IAC pode fazer que mulheres extremamente bundudas deixem de ser vistas como gostosas e passem a ser consideradas gordas. Aliás, este pensamento já existe, mas sempre foi reprimido pela ditadura do bumbum. Segundo o portal Globo.com, o escritor de novelas Aguinaldo Silva chamou a Mulher Melancia, ex-musa do Créu e menos conhecida como Andressa Soares, de gordinha e muito mais depois que os dois se encontraram nos bastidores das gravações do “Casseta & Planeta” em 2008.

"Gente, que coisa mais pobre e constrangedora é aquela?”, escreveu ele, “tudo o que se tem ali é uma moça gordinha, a um passo de se tornar obesa! E aquele jeito dela de ficar sempre de costas, a mostrar o traseirão pra câmera... Meu Deus, se aquilo é ser sensual, então não resta outro caminho às mulheres todas senão entrar num convento e virar freiras!". Segundo o IAC, o escritor estava errado, pois a Mulher Melancia já seria obesa e precisaria urgentemente passar a comer somente frutas para emagrecer. Com 1,72m de altura e 120cm de quadril, seu IAC é de 35,15%. De acordo com índice antigo que ignora a grande camada de gordura que recheia o quadril da moçoila e salta aos olhos de quem a observa, ela está dentro do peso normal com 68kg e IMC de 22,98. Os quadris, neste caso, não mentem mesmo.

Um outro problema do IMC é considerar pessoas musculosas obesas. Segundo o personal trainer e líder da equipe de musculação da academia Athletics de Goiânia, Thiago Luiz Leal Borges, a grande crítica ao velho índice se baseia no fato de que a fórmula considera apenas a massa corporal total e a estatura. Isso não seria capaz de considerar o componente de massa muscular por exemplo, sendo muito comum a classificação de homens musculosos como pessoas com sobrepeso ou até obesos. O lutador de vale-tudo Vitor Belfort é classificado como obeso pelo IMC, apesar do fato de ser difícil achar alguma gordurinha no meio de tanto músculo. Com 1,84m e pesando 98kg, seu IMC é de 28. Se levar-se em conta o tamanho do seu quadril (98cm), seu IAC de 20% o classifica como pessoa com uma porcentagem de gordura corporal normal.

A importância de se discutir qual o melhor índice a ser usado para se determinar se uma pessoa está obesa ou não é que estes parâmetros são largamente usados pelos profissionais de saúde para orientar quais medidas tomar para melhorar a vida dos obesos. A cirurgia bariátrica, aquela que reduz o estômago em casos de obesidade mórbida, por exemplo, só pode ser feita no Brasil se o paciente, homem ou mulher, estiver com um IMC acima de 40 ou com doenças típicas da obesidade e IMC acima de 35. O IAC, neste caso, seria mais preciso, uma vez que leva as diferenças orgânicas entre homens e mulheres e diferencia a massa muscular da massa de gordura e ossos.

Thiago Luiz afirma que, por ser uma pesquisa recente, o IAC, para ser melhor aplicado, deve ser mais estudado, inclusive em outras etnias, como a das brasileiras que tem o quadril largo, além dos afrodescendente e os cidadãos de origem mexicana americanos do estudo preliminar. O certo é que, se o IAC for mais usado no futuro, nosso conceito de beleza pode mudar. As mulheres brasileiras, não querendo ser chamadas de obesas, certamente vão querer um quadril menor e os homens vão ter que se acostumar com isso. A Mulher Melancia, por exemplo, fez uma lipoaspiração na região do bumbum em 2009, depois que Aguinaldo Silva a chamou de gorda no ano anterior.

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